Foi um momento inesquecível a projeção do filme "O Veneno e o Antídoto" em Brasília. Antes da exibição tivemos um encontro com o Ministro Tarso Genro, Ricardo Balestreri - Secretário Nacional de Segurança Pública, Ronaldo Teixeira - Secretário Executivo do PRONASCI, Marlova Noleto da UNESCO, Damian Platt e Feijão do AfroReggae, Estevão e Regina Casé da Pindorama, além do ex-Secretário de Segurança Pública de Bogotá Hugo Acero. Foi bacana ouvir do Ministro que estamos todos sintonizados em pensar a Segurança Pública como um conjunto se ações que mediam relações em nossa sociedade, contemplando, além da força policial, a educação, a saúde e os direitos civis.
Infelizmente vemos ações policiais no Rio de Janeiro que refletem um pensamento oposto a esse, onde a vida de qualquer cidadão não vele absolutamente nada, como assistimos na morte do menino João Roberto. O que me parece mais óbvio nesta história de barbárie é que além do despreparo da força policial, aqueles soldados, como outros tantos, não estavam ali para prender os assaltantes ou pôr ordem na cidade ou se defender de um perigo iminente mas, acostumados à idéia que qualquer marginal deve morrer, estavam ali para matar. A naturalidade com que se mata nas favelas brasileiras foi transferida à uma família de classe média. As imagens da câmera de segurança do prédio em frente ao ocorrido mostram que o carro foi alvejado depois de estacionado, com tiros disparados a pelo menos três metros de distância. Isso é o oposto total ao que estamos pensando, pois qualquer morte deve ser evitada, qualquer tiro deve ser planejado, assim como deve ser pensado um jeito de usar em benefício do país todas essas vidas que estão sendo jogadas “no lixo”.
Quanto custa uma vida? Imagine primeiro o quanto foi investido pela família. Todo pai e mãe espera que seu filho lhe garanta o futuro quando este estiver economicamente ativo e os pais já aposentados ou no fim da vida. A morte é a falência de anos de investimento em educação, comida, saúde, transporte etc. Altas taxas de mortalidade fazem com que gente produtiva morra. É capital humano da sociedade que se perde. Deixa-se de gerar novas riquezas. Quanto custa um cadáver ao estado? Quanto custa um prisioneiro para o Estado? E quanto custa educar um cidadão? Qual o melhor investimento?
O fundo do poço onde o Rio de Janeiro se meteu parece não ter fim mas começamos a ver uma luz tênue no fim do túnel. E não vamos deixar de andar em direção a ela, mostrando caminhos possíveis para a formação de novas mentalidades que possam conduzir esse país. Um governo deve governar a cidadania. A escola já regula, controla, até reprime. A saúde também é um desses sistemas reguladores. A cultura é uma regulação recíproca entre uma pessoa e um grupo, assim como a moral e as leis. Com tudo isso, ainda há que se fortalecer e moralizar a polícia, os tribunais e o sistema penitenciário, pois sem Justiça não há democracia. E a democracia se exerce nas ruas. A vidas nas cidades nos ensina que os lugares mais seguros são aqueles onde tem muita gente "tomando conta" do espaço público.
Ah, quase ia esquecendo de dizer, na platéia estavam oficiais da PM de quase todos os estados do Brasil. Ao final, fizeram questão de tirar fotografias com Regina e Feijão, que havia contado no debate para todos suas histórias no mundo do crime. Foi um momento inesquecível que indica possíveis caminhos para a consolidação da democracia no Brasil que, não se esqueçam, re-começou em 1989. Somos todos muito jovens...
Estevão Ciavatta
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