Continuando o
post anterior, transcrevo aqui um trecho do Livro "Capitalismo Natural" de Paul Hawken, Amory Lovins e L. Hunter Lovins, ed. Cultrix. Essas palavras me fizeram deixar de comprar muitas coisas, além d'eu praticamente parar de tomar coca-cola ! Confiram.
Trecho pgs 46 e 47:
“Todo produto que consumimos tem uma história oculta semelhante, um inventário não escrito de material, recursos e impactos. É também acompanhado pelo desperdício gerado por seu uso e disposição. Na Alemanha, essa história oculta é chamada de “mochila ecológica”. A quantidade de refugo produzido para fazer um chip semicondutor é de mais de 100 mil vezes o seu peso; o de um laptop chega a quase 4 mil vezes o seu peso. São necessários dois litros de gasolina e mil de água para produzir um suco de laranja da Flórida. Uma tonelada de papel exige o emprego de 98 toneladas de diversos recursos.
Um interessante estudo de caso mostra a complexidade do metabolismo industrial no livro Lean Thinking (O Pensamento Estéril), de James Womack e Daniel Jones, que acompanha a origem e a trajetória de uma lata de Coca-Cola inglesa. A fabricação da lata resulta mais custosa e complicada que a da própria bebida. A bauxita é extraída na Austrália e transportada para um separador, que, em meia hora, purifica uma tonelada de minério, reduzindo-a a meia tonelada de óxido de alumínio. Quando acumulado em quantidade suficiente, o estoque é embarcado em um gigantesco cargueiro que o leva à Suécia ou à Noruega, onde as usinas hidroelétricas fornecem energia barata. Depois de um mês de travessia de dois oceanos, ele passa outros dois meses na fundição. Ale, um processo de duas horas transforma cada meia tonelada de óxido de alumínio em um quarto de tonelada de metal alumínio em lingotes de dez metros de comprimento. Estes são tratados durantes quinze dias antes de embarcar para as laminadoras da Suécia ou da Alemanha. Lá, cada lingote é aquecido a quase quinhentos graus Celsius e prensado até atingir a espessura de 0,30 centímetros. As folhas resultantes são embaladas em rolos de dez toneladas e transportadas a um armazém e, depois, a uma laminadora a frio do mesmo país ou de outro, onde voltam a ser prensados até ficar dez vezes mais finas e prontas para a fabricação. O alumínio é, então, enviado à Inglaterra, onde se moldam as folhas em forma de latas que, a seguir, são lavadas, secadas, esmaltadas e pintadas com a informação específica do produto. Depois de laqueadas, rebordadas (ainda não têm tampa), recebem uma camada protetora interna, que evita que o refrigerante as corroa, e passam pela inspeção. Colocadas em paletes, são erguidas pelas empilhadeiras e ficam armazenadas nas prateleiras. No momento do uso, são transportadas até a engarrafadora, onde as lavam e limpam uma vez mais e as enchem de água misturada com xarope aromatizado, fósforo, cafeína e gás de dióxido de carbono. O açúcar vem das plantações de beterraba da França depois de passar pelo transporte, a usina, a refinação e o embarque. O fósforo, originário de Idaho, nos Estados Unidos, é extraído em minas profundas – processo esse que também desenterra o cádmio e o tório radioativo. As empresas de mineração consomem permanentemente a mesma quantidade de eletricidade que uma cidade de 100 mil habitantes a fim de dar qualidade alimentar ao fosfato. A cafeína vai da indústria química para o fabricante do xarope na Inglaterra. As latas cheias, depois de vedadas com uma tampa pop-top de alumínio em um ritmo de 1.500 por minuto, são embaladas em caixas de papelão com as mesmas cores e esquemas promocionais. Estas foram feitas com polpa de madeira oriunda de qualquer lugar, da Suécia à Sibéria e às antigas florestas virgens da Colúmbia britânica, que são o habitat dos ursos pardos, dos cachorros-do-mato, das lontras e das águias. Uma vez mais empilhadas em paletes, as latas são transportadas ao armazém de distribuição regional e, pouco depois, ao supermercado, onde normalmente as compram em três dias. O consumidor adquire 350 mililitros de água com açúcar colorida com fosfato, impregnada de cafeína e aromatizada com caramelo. Beber a Coca-Cola é questão de alguns minutos; jogar a lata fora, de um segundo. Na Inglaterra, os consumidores jogam no lixo 84 por cento das latas, o que significa que a taxa geral de alumínio desperdiçado, sem contar as perdas de produção, é de 88 por cento. Os Estados Unidos ainda obtém do minério virgem três quintos do alumínio que consomem, gastando vinte vezes a energia do metal reciclado, sendo a quantidade de alumínio que jogam fora suficiente para renovar toda a frota de aviões comerciais do país de três em três meses.”
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